"A Roda do tempo" - Minhas Percepções TV vs Livros!

 


O que está feito está feito. Há de ser o que a Roda Tecer. Moiraine Damodred 


A adaptação da Amazon dos livros de "A Roda do Tempo" é uma mistura de expectativas e sentimentos. É comum a qualquer leitor, que  tenha o desejo de ver sua abra literária que tanto gastou tempo nutrindo uma leitura de horas, imaginando cenários, batalhas, pensamentos e sentimentos por seus personagens.

Para mim Jordan escreveu mais do que uma série de livros; um universo vasto e complexo, construído com paciência ao longo de mais de 11 mil paginas e mais de 2800 personagens nomeados dentro da obra. Minha mente analisa e buscava padrões e consistências, mas meu coração de leitor não hesitava em sentir a dor das inconsistências e a alegrias dos acertos que a Amazon proporcionou na adaptação.

A tarefa de adaptar uma obra tão imensa e monumental, era de um desafio que exige não apenas investimento financeiro, mas compreensão profunda da essências da obra. 




O BRILHO INICIAL: ONDE A RODA ACERTOU O PASSO

Em justiça a Amazon, é fundamental destacar os elementos que a série executou de forma louvável.


A Ambição e Escala Visual – O World-Building Materializado: 

  • O investimento na produção de Tar Valon, Dois rios, o Bligth a grande cidade de Cairhien *mesmo com pontos que foram um pouco diferentes do que imaginava. A série conseguiu passar a a sensação de um mundo vasto, antigo e de que tem muitos mistérios ainda perdidos da era das lendas a serem encontrados. 
  • Os Trollocs que ficaram bem caracterizados apesar das diferenças dos livros, porém é algo que é compreendido devido a complexidade das características dos mesmos nos livros. 
  • O Blight (a praga) ela passou bem a desolação e a corrupção, mas não ficou tão profunda que nem nos livros, a falta dos personagens caminhando nas terras da praga e a falta do acampamento onde seria Malkier pesou um pouco pra mim.
  • A Âncora Dramática: Rosamund Pike como Moiraine Damodred: Ela é, sem dúvida, o grande trunfo da série. Rosamund Pike entrega a autoridade, o mistério, a sabedoria e a dor de Moiraine de forma magistral. Sua atuação carrega a série nas costas. A profundidade emocional que ela entrega é um grande diferencial. Junto ao ator que faz seu Guardião (Lan), trás uma química e a lealdade entre Rosamund Pike e Daniel Henney são palpáveis, tornando essa parceria tão cativante quanto nos livros. Daniel Henney, por sua vez, encarna a estoicidade e a capacidade letal de Lan de forma convincente.
  • A Representação Visual do Poder Único (One Power: Poder ver as tramas do poder unico sendo urdidas e a forma como o poder afeta que o uso são coisas que ficam bem concebidas.
  • Esforço em Tornar a Obra Acessível a Novos Públicos: Eu critico a simplificações, mas reconheço que o desafio de adaptar uma saga que nem a roda do tempo de forma fiel é algo de extrema complexidade para o publico mainstream. Faz muito esforço para condesar a lore complexa, num vasto elenco e as múltiplas linhas de enredo, tornando-a mais digerível. Para muitos, foi a porta de entrada para o universo que Jordan criou e isso tem seu valor.


OS DESVIOS QUE ME INQUIETARAM

A descaracterização Essencial dos Personagens principalmente dos protagonistas:

  1.  A idade: A escolha de tornar os protagonistas mais velhos me incomodou bastante. A falta da juventude e da inocência que o Rand, Mat, Perrin e Egwene, tira o impacto emocional de serem lançados ao mundo perigoso coisa que é crucial para os arcos de amadurecimento. São adolescentes forçados a se tornarem adultos e pior Lideres: Na TV parecem jovens adultos que já tem certa malicia do mundo e isso desvaloriza a jornada de transição deles. 
  2. A historia do Rand: Que teve sua historia extremamente diluída, não deixando espaço para o seu ceticismo caipira jogado em mundo gigante. Seu ceticismo em aceitar que é o Dragão Renascido, na Tv ele simplesmente aceita, sem aquele grande conflito interno que ele tem nos livros. E o que me deixa mais triste é que sua historia em vez de ser construída ao longo das temporadas ela vem cada vez mais diluída ao ponto de que pra mim a única semelhança do personagem da tv com o livro é que ambos são o Dragão Renascido. O ataque à fazenda ter matado Tam, em vez de feri-lo e levá-lo a revelar de forma sutil a adoção de Rand, removeu a profundidade e o peso daquela descoberta crucial e o peso que ele carregou por vários e vários capítulos. O isolamento de Rand na primeira temporada é uma aberração; no livro, ele tem a grande jornada com Mat e Perrin, construindo uma camaradagem vital para seu desenvolvimento.
  3. Mat e a Familia Couthon: A energia caótica que o personagem tem, a sorte doentia, o lado sombrio do punhal de Shadar Logoth que o corroeu por tanto tempo, sua lealdade escondida sob pilhéria. Sua ausência por motivos de elenco foi de fuder. A relação de Mat com a família, que nos livros, apesar dos pesares, é de uma união e apoio fundamentais para sua identidade, parece bem mais disfuncional e menos calorosa na série. Parece que queriam passar que era um lar desfeito por uso de drogas pqp.....
  4. Ah, Perrin: Um dos meus personagens mais queridos e emblemáticos a sua dualidade do Martelo e do Machado. O gentil garoto que se tornou num homem mais gentil ainda, que detesta a violência. A grande mudança de ter tirado Haral Luhhan e sua esposa Alsbet  e ter adicionado uma esposa (na qual ele mata, mesmo que seja por acidente) para Perrin no lugar, foi de tremendo mal gosto, o que torna uma mudança drástica que pra mim afeta profundamente a forma com a qual eu enxergo o personagem. Nos livro, a aversão dele à violência é intrínseca ao seu caráter, moldada por sua própria natureza e o fardo dos lobos, não por um trauma tão específico e inventado. Isso altera a base de seu conflito moral de forma fundamental.

Ritmo e Enredo: 

A série ela pra tentar manter um ritmo, talvez porque teria um numero determinado de temporadas, atropelou desenvolvimento cruciais e simplificou arcos complexos que acabou custando a coerências de alguns fatores:

  1.  Shadar Logoth ficou muito Superficial: A história na série foi contada de forma tão curta, deixando de lado todo o peso histórico e maligno do local. A forma como o mal de Mashadar e a adaga de Mat são introduzidos e desenvolvidos nos livros é lenta, aterrorizante e fundamental para aprofundar o perigo e o sofrimento de Mat. Na série, tudo parece apressado, diminuindo o impacto da corrupção da adaga no personagem. Sem contar que o local no futuro desempenha um papel crucial para o desenrolar da historia.
  2. Condensação Excessiva: A série tenta espremer eventos de quatro livros em duas temporadas. A velocidade com que chegam a Falme, as reviravoltas lá, e a ponte para Tear nem tem... Parece que estamos correndo para cumprir metas de plot em vez de viver a história. A profundidade da política e das interações é sacrificada.
  3. A Ausência da Pedra de Tear e Callandor: A falta do arco da Pedra de Tear e de Callandor é um erro quem não tem perdão. Esse é um ponto de virada monumental na história de Rand, a concretização do Ciclo de Karaethon é crucial  para o estabelecimento de Rand como o Dragão Renascido de uma maneira inegável. Não ver essa ascensão e o peso de Callandor desvaloriza todo o buildup.
  4. O Arco de Dois Rios Perdido: A falta do arco de Dois Rios no quarto livro, A Ascensão da Sombra, com a participação da Verin Sedai, Alanna Sedai, seus guardiões e dos Abel e Tam... Essa saga é épica! A defesa de casa montada por Perrin, o retorno às raízes, o fortalecimento dos laços com o lar, e a introdução de novos personagens importantes. Ignorar isso é perder uma parte vital da formação e do propósito dos três ta´veren.

O VEREDITO: ENTRE O CÓDIGO E A POESIA

No fim das contas para não me estender já que ficou vários pontos importantes dos livros para construção dos principais personagens que não irei mais alongar esse texto, fiz dos pontos que mais me frustrarão a inicio. 

E como toda adaptação de uma obra amada, ela será julgada pela sua fidelidade não só ao enredo, mas ao espírito. Há o esforço, há o investimento, e há momentos em que a magia de Jordan brilha na tela, oferecendo vislumbres do potencial que imaginamos.

Mas há também as decisões que me fizeram (e farão) fechar os olhos, balançar a cabeça e voltar meus pensamentos para a certeza e a profundidade das páginas. 

É uma série que caminha em duas Rodas: a que gira para frente, buscando sua própria identidade e um novo público, e a que, em minha mente, gira constantemente de volta para os livros, buscando a referência, o "como deveria ter sido".  - Há de ser o que a Roda Tecer.


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