Conversa Solta - Capitulo 3: Tentando descobrir como perdi fluxo linear da minha vida!

 

 

Reconheço. Hoje, a reflexão me atingiu com a força de um coice de uma mula manca, daqueles que você nem espera, mas que assentou muito bem encaixado em seu peito. Descobri, para minha surpresa (e sem constrangimento), que sempre fui um:

 

Mestre na Arte da Auto-Sabotagem Disfarçada de Destino.

 

Sim, meus caros. Vocês poucas pessoas que leem meus textos e incautos navegantes que se perderam e acabaram caindo aqui no blog, passei boa parte da minha existência abrigando um universo de inseguranças por trás de uma persona que, juro, até para mim era convincente. Era a imagem do indivíduo que aparentemente estava em pleno controle, com as rédeas firmes na mão, mas que, no fundo, era apenas um fantoche da própria inércia, movido por ventos invisíveis de conveniência e conformismo. Uma marionete que se orgulhava de seus próprios movimentos, sem perceber os fios que a puxavam.

 

Depois daquele ritual quinzenal com meu psicólogo – a quem, em breve, terei que pagar mais horas extras para desvendar as profundezas do meu subconsciente, ou talvez para ele mesmo se recuperar dos meus devaneios depois de hoje – veio a árdua tarefa de traçar a tal "linha linear" do meu eu passado, presente e futuro.

Francamente, parecia mais um convite à loucura do que um exercício de autoajuda. Minha mente, acostumada a divagar por tangentes e becos sem saída, resistia à simplicidade de uma linha reta. O resultado? Uma epifania que, confesso, me deixou com um ligeiro gosto de cinza na boca, um nó na garganta, um aperto no peito era como se eu tivesse mastigado as próprias ilusões: a percepção cristalina de que, aparentemente, eu deixei a "vida" e as "pessoas" ditarem meus rumos com a mesma desenvoltura com que um rio segue seu leito, sem questionar a gravidade ou a topografia.

Um verdadeiro triunfo da passividade existencial, onde a ausência de escolha ativa era, paradoxalmente, a minha principal forma de ação.

 

Bem, mas não se enganem como eu. A minha cegueira não era completa, apenas convenientemente seletiva. Percebo agora, com a clareza de uma lente (ainda que levemente embaçado pela autocrítica e pela poeira de anos de negação), que sempre fui conduzido a determinados "eventos" da minha vida.

Nunca, vejam bem, por uma escolha própria e consciente, nascida de um desejo intrínseco. Era como se as Aes Sedai do universo de a Roda do Tempo de Robert Jordam estivessem sussurrando em meus ouvidos, manipulando meu pobre Rand al'Thor interior, sem que o coitado percebesse os fios dos fluxos de saidar urdindo seu destino. A grande diferença, claro, é que o Rand da ficção eventualmente percebeu e decidiu que não seria mais um peão no tabuleiro alheio, assumindo o controle como um bom ta'veren tem que ser.

Já eu? Bem, eu só percebi agora, anos depois, que mal tinha as peças certas para montar o meu tabuleiro, muito menos para jogar a partida. Eu era o tabuleiro, as peças e o jogador, mas me comportava como um mero espectador.

 

A saga do indivíduo que pensava estar dirigindo, mas era apenas um passageiro privilegiado...

 

Analisando a coisa toda no consultório, com a simplicidade que só uma mente complexa consegue simular, cheguei à brilhante conclusão de que, aparentemente, tudo o que sou hoje, eu simplesmente "deixei acontecer". Uma espécie de "acontecimento" ambulante, onde a vida me empurrava e eu ia, com a resiliência de um saco de batatas, sempre me adaptando à nova posição.

Claro, não sejamos tão dramáticos: há nuances.

Por exemplo, meu relacionamento com a Iasmin. Ah, Iasmin! Essa, sim, foi uma escolha. Uma raríssima e gloriosa escolha, pela qual luto com a ferocidade de um leão (ainda que, para ser sincero, com a destreza ocasional de um coala desatento e burro, como bem atestam meus erros idiotas e as vezes em que quase estrago tudo). E minhas lindas cachorras e gata que são como minhas filhas, essas criaturas peludas e exigentes, que me olham com uma mistura de adoração e cobrança por ração, também foram uma decisão inquestionável. Pequenas ilhas de agência num oceano de inércia conveniente (onde mora Tortuga meu outro refúgio), faróis que me lembram que a capacidade de escolher, afinal, existe.

 

Um Olhar Póstumo para o "Eu do Passado": Onde o Controle era uma Doença

**Mesmo com esse subtítulo lucubre faz jus a história.**

 

Fazendo uma escavação breve na memória, alguns pontos curiosos se revelam, como fósseis de um eu mais jovem e estranho:

 

Lá pelos meus 8 anos, eu era o protótipo do gênio incompreendido: alegre na solidão, imerso em meus próprios mundos de fantasia, mas travado e terrivelmente tímido para a socialização.

A escola? Um horror. O cheiro do local, o burburinho das vozes, a mera ideia de ter que interagir com aquelas pessoas me causava calafrios. Crises de choro, febre, dores de cabeça inexplicáveis... tudo para evitar o purgatório social daquele colégio.

Só melhorei quando, milagrosamente meus país entenderam... fui transferido para outra escola, onde, para minha surpresa, me adaptei e gostei dos colegas. Uma amostra precoce da minha notável capacidade de adaptação quando não há outra opção, quando a alternativa é mais dolorosa que a mudança.

Hoje, claro, a maioria daqueles "colegas" dificilmente passaria no meu teste de "um minuto de conversa interessante" – o que, ironicamente, me faz questionar se a adaptação foi genuína ou apenas mais uma faceta da minha habilância em me moldar ao ambiente.

Fazer amizades sempre foi uma peneira fina. Se o olho não batia, se a primeira impressão não acendia aquela faísca de reconhecimento de almas, a amizade nem ensaiava. Uma espécie de pré-julgamento existencial elevado à arte, onde a intuição (ou seria o preconceito?) era soberana. Não importava se o resto da turma idolatrava a criatura, se ela era o centro das atenções; se meu instinto primário torcia o nariz, eu permanecia em minha bolha de superioridade velada, observando de longe com um ar de quem sabe mais do que diz.

Uma escolha, sim, mas daquelas que se escondem sob o manto de um "instinto" inquestionável, uma forma de evitar o esforço da descoberta e o risco da desilusão.

E a forma de conseguir as coisas na infância? Ah, essa era genial! Nunca fui daquelas crianças pirracentas que se jogam no chão do supermercado, fazendo escândalo. Se meus pais diziam "não", era "não". Mas, em minha inocência angelical, eu remoía. Remoía tanto que ficava doente. Uma febre misteriosa, uma dor de estômago súbita, uma tosse persistente... Só sarava, miraculosamente, quando o brinquedo desejado aparecia em minhas mãos. Uma forma de controle quase xamânica: o corpo como a derradeira ferramenta de persuasão, uma arma biológica silenciosa. Antes mesmo de articular um argumento, minha biologia já estava a postos, tecendo a teia da minha (in)vontade, manipulando o ambiente através da culpa e da preocupação alheia.

Até esse ponto, então, eu tinha um "controle" peculiar. Um controle que não falava, mas adoecia; que não pedia, mas implorava através de sintomas. Um mestre na comunicação não-verbal coercitiva, um manipulador inconsciente que usava a própria fragilidade como alavanca.

 

Da Adolescência em Diante: Onde o 'Acaso' Tinha um Plano?

 

É a partir dos 11 anos que a trama se adensa e o título deste capítulo começa a fazer um sentido doloroso...

Aqui, a vergonha de fazer amizades, por algum milagre da puberdade ou talvez pela pura exaustão de ser tão insuportavelmente tímido, diminuiu. E, claro, a letra horrorosa e os amores por Geografia, História e Ciências – com seus circuitos de limão e motores de pilha CMOS, que eu montava na curiosidade de aprender, mas também em uma forma de insolar de outras interações, fascinado pela lógica e pela funcionalidade – floresceram. Mas, como nem tudo são flores num jardim que eu nem tinha certeza se havia plantado, onde acha que o chão era de areia...

 

Sempre houve aqueles espécimes humanos que nutriam uma inexplicável inimizade gratuita contra mim. Queriam brigar, e eu, como um ninja da esquiva, sempre me desviava, usando a inteligência e a agilidade verbal para evitar o confronto físico. Isso perdurou até o ensino médio, onde a hostilidade juvenil é quase um rito de passagem pelo menos a minha época, hoje o pessoal é diferente.

Era a vida me testando? Ou apenas um convite à minha habilidade latente de manipulação, de desarmar o inimigo sem levantar a mão, apenas com a palavra certa ou o silêncio estratégico?

Acho que, por conta dessa "popularidade" inversa, desenvolvi uma notável capacidade de agradar.

Tornar-me o "bom moço" para aqueles que eu gostava, o confidente, o porto seguro, escondendo sentimentos e fatos para não "magoar" ninguém, para manter a paz artificial.

O resultado, claro, era que o magoado, no final das contas, era eu.

Uma troca justa, não? A paz alheia pela minha própria desintegração interna, um sacrifício silencioso da autenticidade em nome da aceitação.

Mas eis a reviravolta digna de livros: as mesmas pessoas que não me suportavam? Ah, para essas, eu sempre tinha um "jeitinho". Estilo o "jogo das casas" em A Roda do Tempo, onde a política é uma teia de intrigas e manipulações sutis: fomentando inimizades por baixo dos panos, papéis soltos aqui, um rabisco estratégico no banheiro, uma palavra sem contexto jogada ao vento, um whisper campaign discreto... Eu sempre soube como fazer o parquinho pegar fogo, sem jamais pisar na brasa inflamada.

O pequeno príncipe da intriga, o caos calculado, o mestre em plantar a discórdia sem deixar impressões digitais.

Esses fatores, embora não sejam os únicos (afinal, a vida é um emaranhado de inconsistências e contradições), moldaram o meu ser. Moldaram-me a ser um agradador profissional, o guardião de segredos alheios e, ironicamente, o sabotador da própria autenticidade, um arquiteto de fachadas e um mestre na arte da dissimulação.

 

A Vida Adulta: A Maré Que Me Levou a Lugar Nenhum (e a Lojas de Animais)

 

Já adulto, meus relacionamentos (com a notável exceção do atual) foram todos levados pela maré. Começavam, digamos, por inércia, por conveniência, por falta de opção melhor, e terminavam da mesma forma: cada um para seu lado, sem um pique de saudade ou a menor vontade de revisitar a cena do crime.

No começo, era "bom", uma zona de conforto temporária, até que a rotina revelasse o sacrifício unilateral: eu me desdobrava, abria mão até de oportunidades de trabalho e crescimento pessoal, para receber em troca o mínimo de consideração ou, vá lá, um sexo medíocre (nem sempre), desprovido de paixão ou conexão.

Todos eles, porém, tiveram algo em comum: me fizeram seguir por caminhos que, revendo hoje, foram claramente impostos, não escolhidos. Uma coleção de "não-escolhas" que, em sua soma, pareciam escolhas, um paradoxo fascinante de passividade ativa.

 

Até meu trabalho atual, essa rocha sólida de estabilidade em minha vida, foi um mero "acontecimento". Consegui-o meses depois de entrar na faculdade, sem padrinhos ou rituais de iniciação, quase como se tivesse caído no meu colo. Claro, a capacidade de manter o emprego e progredir nele, essa sim, foi cortesia da pessoa que escreve nesse momento – um raro vislumbre de agência num mar de "sorte", onde a competência e a dedicação se sobrepuseram ao acaso inicial.

 

Não sei mais dizer se realmente escolhi algo, ou se fui apenas um espectador complacente da minha própria vida, um figurante no meu próprio filme. O passado, portanto, se recusa a ser linear.

Ele é um labirinto de ramificações que se dobram sobre si mesmas, onde cada aparente "acaso" pode ter sido, na verdade, uma não-escolha disfarçada, ou uma manipulação inconsciente, um eco daquele meu corpo infantil que aprendera a pedir adoecendo, ou um sinal de fumaça de uma vontade que eu não sabia como expressar diretamente.

 

Porém, da época em que conheci a Iasmin para cá, uma nova aurora parece despontar, pra mim ela é “Aquela que vem com a Aurora” meu Rand por assim dizer, ela veio para me ajudar a destruir o meu antigo e a construir um novo.

Acho que, finalmente, comecei a escolher. A me levantar do sofá onde a vida me sentou e, quem sabe, até a dar alguns passos cambaleantes na direção de algo que, surpreendentemente, quero, mesmo que o esforço seja imenso e o medo do tropeço ainda me assombre.

 

Mas isso, meus caros, já é assunto para o próximo capítulo. Que, prometo, versará sobre o meu eu do presente – o indivíduo que, finalmente, está aprendendo a dançar, mesmo que ainda tropece nos próprios pés, e que talvez, só talvez, esteja começando a escrever sua própria coreografia.


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