Conversa Solta - O que define o que é certo? Quem define o que é certo? Até onde pode ir a intervenção de fora ?

 


Reflexão sincera sobre poder, moral e hipocrisia no cenário geopolítico


No momento em que os Estados Unidos impuseram sanções ao Irã e à Venezuela, com o perene discurso de defender a liberdade, a democracia e o combate a regimes autoritários. Palavras bonitas. 
Essas que soam como a moral indiscutível. palavras que, na prática, servem de cortina de fumaça para algo muito menos nobre.

O que pergunto é, o que deveria estar no centro de qualquer debate sobre intervenção estrangeira raramente é feita honestamente: "QUEM TEM O DIREITO DE DECIDIR O QUE É CERTO?"

A Falácia do "CERTO" Universal


Essa ideia de que existe um "certo" universal, aplicável a todas as nações e culturas, é uma construção conveniente - para quem detém o poder de definir esse certo.

Immanuel Kant propôs o imperativo categórico que age apenas segunda uma "máxima" que possas querer que se torne lei universal. Geopoliticamente falando, se aplicarmos a pergunta seria:

Os E.U.A aceitariam que outro país impusesse sanções e interesse em seu território sob o pretexto de "defender a liberdade" ?

Obviamente, não. Eles não aceitam. Pois a própria noção de soberania americana ela é muito maior e sagrada e inviolável. 
Porém a Soberania dos outros, essa sim é negociável, pode ser violada quando for conveniente aos interesses.

Nessa contradição: o que é "certo" parece defender de quem tem as maiores armas para impô-lo

A hipocrisia como Sistema

Não veio nesse texto tentar defender Venezuela ou Irã. 
Ambos tem seus problemas reais e suas violações de direitos humanos, prisões politicas, economia mal gerida. O que me incomoda é a seletividade da indignação. 

Qual a diferença da Arábia Saudita, por que não ela?

A diferença está que ela é obtende aos  interesses dos americanos, revelando um incomodo. O critério moral o discurso de venda. Pois o produto real é a manutenção da hegemonia.

Foucault compreendeu isso muito bem: o poder produz a verdade. Quem detém o poder define o que é considerado "certo", o que é considerado "democracia", o que é considerado "legítimo". O resto é barulho.

Schopenhauer  e a Vontade por trás da Moral

Schopenhauer oferece uma visão que desmitifica isso. Para ele, a moral não é uma verdade objetiva - ela é uma expressão da vontade de viver. Essa construção que serve aos interesses daqueles que a formulam.

Para os americanos, eles a chama de "defesa da liberdade", na visão de Shopenhauer, uma manifestação da vontade de poder, a mesma força que move todos os impérios da historia, apenas vestida com roupas morais bonitas.

Shopenhauer mostra que a compaixão, via  como base genuína da moral, está ausente desse jogo. Não havendo compaixão em sanções que sufocam economias, que privam populações de medicamentos e alimentos, que geram sofrimento em massa. Há apenas cálculo e estratégia. Fazendo com que a dominação seja disfarçada de benevolência. 

O Limite da Intervenção: Soberania ou Império?

Pergunto para vocês, "até onde pode ir a intervenção de fora?". Se aceitamos que uma nação pode intervir em outra para "corrigir o que está errado," estamos aceitando o fim da soberania como conceito?.

Mas não aceitamos isso de forma universal?. 

Aceitamos apenas quando o interveniente é poderoso o suficiente para impor sua vontade?.

Isso não é ordem internacional é império disfarçado de consenso.

O direito internacional, as Nações Unidas, os tratados de soberania, todos esses mecanismos funcionam até o momento em que um país poderoso decide que não é mais.

Então, a moral se reconfigura. 

E a intervenção se torna "necessária." O "certo" se redefiniu novamente.

O Espelho que Ninguém Quer Olhar

O que estamos testemunhando não é a defesa de valores universais, é a defesa de interesses particulares revestidos de universalidade.

Os americanos não intervêm porque algo está "errado." Eles intervêm porque algo está fora do alinhamento para com eles

E o principal critério de alinhamento não é a democracia, não é direitos humanos, não é liberdade — é obediência estratégica e econômica.

Enquanto aceitarmos o discurso de que "o certo" pode ser definido por quem detém o poder militar, continuaremos vivendo em um mundo onde a moral é apenas mais uma ferramenta de dominação.

Schopenhauer diria que a vontade de poder sempre encontrará uma justificativa moral para seus atos. A questão é: vamos continuar aceitando essa justificativa sem questionar?

A hipocrisia só funciona enquanto há quem acredite nela. O momento em que enxergamos o mecanismo por trás do discurso, ele perde seu poder.



Conclusão

A questão central de quem define o que é certo? Ela não se encontra em alguma resposta honesta. 

O que encontramos é uma hierarquia implícita: nações poderosas definem a moral, nações fracas a recebem. O paradoxo é revelador: os mesmos que invocam a "liberdade" para intervir são os que menos toleram questionamentos sobre sua própria legitimidade moral.

Schopenhauer nos alertou: a vontade de poder sempre vestirá roupagens virtuosas. O império não se declara como império se declara libertador. A dominação não se assume como dominação e se apresenta como obrigação moral.

Enquanto aceitarmos que "o certo" pode ser definido unilateralmente por quem detém a máxima de poder, viveremos em um mundo de soberanias de segunda classe, coadjuvantes no planeta, com alguns intocáveis, outras negociáveis conforme a conveniência do momento.

A hipocrisia, tem ponto fraco: ela depende da crença alheia. Quando o discurso se esgota e o mecanismo fica exposto, a legitimidade se desfaz.

Não creio que esse momento é agora ou que ele está próximo.

A pergunta que fica não é sobre os EUA, Irã ou Venezuela. É sobre nós mesmos: vamos continuar aceitando a moral como ferramenta de poder, ou vamos exigir que ela seja o que deveria ser um critério universal, aplicável inclusive a quem o impõe?

Talvez seja hora de olhar para o espelho e ver o que ele realmente mostra!.

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